Música Coral
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Música brasileira e portuguesa do século XVIII
JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA (Rio de Janeiro, *1767, +1830)
O Rio de Janeiro estava transformando-se em capital do Vice-Reino quando nasceu José Maurício Nunes de Garcia. Hoje, graças ao extraordinário trabalho de pesquisa desenvolvido por Cléofe Person de Mattos, José Maurício é exceção absoluta no panorama da música brasileira setecentista e oitocentista: sua biografia está desenhada em seus mínimos detalhes e seu catálogo de obras talvez cubra a totalidade de sua produção conservada nos diversos arquivos musicais brasileiros e portugueses. Ao longo de quase cinqüenta anos de pesquisas, Dona Cléofe lançou luz sobre os diferentes momentos da vida do grande músico, além de ter realizado minucioso estudo de fontes musicais, com o objetivo de confirmar autoria de muitas obras tradicionalmente atribuídas ao compositor carioca.
Deste modo, pode-se acompanhar mais de meio século de criação, desde a primeira obra identificada do jovem de dezesseis anos – o Tota pulchra es Maria -, um ano antes de ter assinado, com diversas personalidades da música carioca, o compromisso da Irmandade de Santa Cecília, que conferia a qualidade de músico profissional. Pode-se ver a trajetória do Padre, seus estudos de latim, de filosofia e de retórica, sua ordenação em 1792 (quem sabe um meio de promoçãosocial, mais que verdadeira vocação para a pastoral?). Revela-se o percurso do profissional que torna-se Mestre de Capela da Sé (ainda localizada provisoriamente na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos), antes de passar para o mesmo cargo na Capela Real (e depois na Capela Imperial). Vê-se o professor, que mantém curso público em sua residência da Rua das Marrecas, com salário pago pela Coroa para que desse ensino musical aos meninos pobres. Acompanha-se a trajetória do intérprete, que, tocando cravo na Real Câmara, fez com que Sigismundo Neukomm tivesse louvado suas habilidades e excepcionais qualidades (o mesmo Neukomm que registrou a estréia brasileira do Réquiem de Mozart e de A Criação de Haydn, ambos sob regência do Padre – Mestre).
Uma pequena parte da longa obra de José Maurício encontra-se editada e gravada, graças sobretudo aos esforços de Cléofe Person de Mattos. Mas resta ainda muito a fazer, particularmente estudos mais desenvolvidos sobre aspectos técnicos e estilísticos desta obras que, por seu conjunto, situam este compositor como a figura de maior destaque no panorama brasileiro das últimas décadas do século XVIII. Ele é a mais perfeita realização da passagem do classicismo para o romantismo musical no Brasil.
As cinco peças incluídas neste disco apresentam facetas bem diferentes da produção de José Maurício, embora todas elas destinem-se a um mesmo ciclo litúrgico: a Semana Santa. Enquanto estrutura (e funcionalidade) litúrgico – musical, aqui aparece um Gradual (para ser cantado após a Epístola, funcionando como uma meditação sobre o que ela enunciou), dois Responsórios (que funcionam também como comentários poéticos a cada uma das nove leituras que, em grupos de três, encerram cada um dos Noturnos do ofício das Matinas) e dois Motetos. Destaque-se, no que se refere à forma poético – musical, a estrutura dos Responsórios, que, para uso nos chamados Ofícios de Trevas, sempre são compostos de três partes: um Moderato inicial, que é seguido de um Allegro, completado com um Andante, concluindo-se a obra com a repetição do Allegro (A-B-C-B). Os responsórios In Monte Oliveti e Judas mercator pessimus são, respectivamente, o primeiro e o quinto das Matinas de Quinta – feira Santa (também chamada Ofício das Trevas, como as Matinas de Sexta – feira da Paixão e de Sábado Santo). O texto do Domine tu mihi lavas pedes foi colocado em música por muitos compositores e está sempre pensado para acompanhar o gesto do celebrante que, na noite de Quinta – feira Santa, lava os pés de doze homens, representando o gesto de Jesus com o grupo dos Apóstolos. O texto relata exatamente esta cena bíblica. O moteto Sepulto Domino é um dos casos mais interessantes do repertório sacro colonial. Ele faz parte de conjunto que, em muitos casos, traz como denominação Quartetos (ou Coros) para a Procissão do Enterro do Senhor. Este conjunto maior representa três momentos de uma mesma cerimônia: antes do Sermão do Descendimento da Cruz, que antecede a Procissão do Enterro, o coro canta o moteto Spiritus cordis nostri. Em diversos momentos da Procissão, o cortejo pára e é cantado um conjunto de cantos que atrai enormemente o povo que acompanha a festividade: este ciclo inicia-se com um terceto feminino (as Marias Béus do interior do país) que canta: Heu, Domine Salvator Nostri (Ai, Senhor nosso Salvador), que prepara o primeiro moteto: Pupili facti sumus. A seguir, a cantora que representa a Verônica canta, sem acompanhamento, o O vos omnes, mostrando ao povo o sudário com a reprodução da face de Jesus. Este ciclo é concluído com o moteto Cecidit corona. Tradicionalmente, ao final da Procissão do Enterro, entram na Igreja apenas o esquife contendo a imagem de Cristo morto, os celebrantes e o coro, que canta o último moteto da coleção, que é precisamente o Sepulto Domino, que relata a cena do sepultamento. O que há de absolutamente curioso neste fato é que, no repertório de igreja, todas as obras servem de oração ou de meditação e têm função pública, sendo dirigidas também ao povo que as ouve. No final da Procissão do Enterro, entretanto, isto não ocorre; o coro não canta o Sepulto Domino diante da comunidade dos fiéis, fazendo-se apenas para a imagem de Cristo.
José Maria Neves